"Vós que lá do vosso império, prometeis um mundo novo...CUIDADO, que pode o povo, querer um mundo novo a SÉRIO!" In: António Aleixo

06/11/2010

"O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo"‏


GANHEI CORAGEM

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche.
É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.
Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre." Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquiloque fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.

Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.

Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.

Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção..."
Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.


Rúben Alves
colunista da Folha de S. Paulo

NOTA:
Depois de ler este artigo fiquei a entender porque caímos nesta crise… O”Banha de cobra”, grande artista, soube enganar o povo!!!

6 comentários:

Luís Coelho disse...

Um artigo muito bem feito e que nos retrata a todos e em todas as sociedades e governos.
Eles sabem dividir o povo e depois enganá-lo.
As TV's estão do lado dos poderosos e até fazem artigos de promoção levando as pessoas em erros.

Já não há moralidade nem vergonha

Mariz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucia disse...

Meu caro Luís,
Na minha opinião tudo depende da educação e instrução do povo. O homem só será verdadeiramente livre de pensar e agir quando deixar de ser ignorante.
Muito mais haveria para dizer porque o artigo que aqui publicou dá pano para mangas, mas, basica e resumidamente, é o que penso sobre o tal povo de quem tanto se fala.
Um abraço

Luis disse...

A todos os Amigos e Amigas,
Não há dúvida que a ignorância dos povos origina a sua fácil manipulação.
Mas este artigo define bem como a política se tem processado aproveitando essa desgraça...
Até quando isto se mantem?
Um abraço solidário e muito amigo.

A. João Soares disse...

Caro Luís,

Um texto que merece ser meditado serenamente, sempre preconceito. Mas realmente somos iletrados, ignorantes, embora arrogantes. E dos poucos (em comparação com os 10 milhões) que o lêem nem todos farão a conveniente interpretação. Isto repercute-se nas eleições que deviam escolher os melhores porque o voto é ditado por um cacique que grita aos ouvidos do pacóvio, ou pelas sondagens. Ignoram que quem decide as eleições não são as sondagens mas os votos que entram nas urnas, e o voto deve ser decidido com consciência com base nos elementos informativos obtidos e analisados pelo próprio eleitor. Somos realmente um povo iletrado e sem capacidade autónoma para raciocinar.
Basta ver o endividamento das famílias que se deixaram ir na cantiga dos bancos interessados em vender fiado, a prestações e com cartão de crédito. Os vendedores da banha de cobra têm em Portugal vasta clientela. É isso e o conto do vigário em que o lesado pensava que era ele a levar a melhor.

Um abraço
João
Só imagens

Parabéns por esta análise muito pertinente e oportuna.

Luis disse...

Caro Amigo João,
Tens razão ao dizer que a maioria não entende este tipo de reflexão senão quando fosse a votos outro "galo cantaria"!!!
Um abraço amigo.